domingo, 17 de abril de 2016

Síntese do último dia I Fórum Nacional da Cultura Taurina:


“Está na moda dizer-se que agora se toureia melhor”


Terminou ontem, dia 16 de Abril, o I Fórum Nacional da Cultura Taurina que teve início a 12 de Março, decorrendo desde há cinco sábados nas instalações da Praça de Toiros do Campo Pequeno, e cuja organização coube ao octogenário Grupo Tauromáquico ‘Sector 1’.


O último dia desta iniciativa abriu com uma mesa redonda de muito interesse e interação com a assistência, tendo por tema “Em que sentido está a evoluir o Toureio a Cavalo em Portugal?”. A exposição do mesmo foi posta pelo Dr. Paulo Pereira como moderador, e que em breves pontos traçou uma evolução no toureio a cavalo, quer pela forma como é praticado, quer como se veio alterando ao longo do tempo o traje de tourear, por exemplo.




Apresentados alguns tópicos, coube ao cavaleiro João Salgueiro ‘abrir praça’, começando por caracterizar as diferenças entre o toureio de antigamente e o toureio actual, tendo por base o tipo de toiro que também é diferente: “Hoje o toiro pode ser mais bonito mas com menos mobilidade”. 

Contudo, acrescentou o cavaleiro de Valada do Ribatejo, que para o tipo de toiro também contribuem os cavalos: “Tenho muita dificuldade em encontrar um cavalo bom hoje em dia (…) e não havendo cavalos com potencialidades, os cavaleiros também exigem toiros com menos potencialidades”.


Salgueiro considerou ainda que “existe uma necessidade de marketing e de se fazer passar a mensagem que os cavaleiros triunfam todos os dias (…) mas quando vemos numa temporada, actuar 10 vezes ou mais, as actuais figuras do toureio, sabemos que se torna repetitivo porque toureiam sempre da mesma maneira”. Pelo que remata “a verdade e a beleza do toureio a cavalo está em improvisar”.


Duarte Pinto levou o tema da mesa redonda a sério e iniciou dizendo que: “Está muito na moda dizer-se que houve evolução no toureio e que agora se toureia melhor” mas na sua opinião “Não vejo, nem nunca vi tourear tão bem a cavalo desde o despique entre o António Telles montando o Gabarito e o João Salgueiro montando o Herói”.


Também o jovem cavaleiro associou ao toureio actual o tipo de toiro mas frisou que outro factor condicionante para o toureio que hoje se pratica é o público que “aceita que se façam coisas na arena agora que antigamente não aceitava (…) e sendo o público quem manda, é ele que deve ser exigente e penalizar.”


Ao que Salgueiro rematou: “Deve tourear-se é o toiro e não o público, e quem não lidar bem com a opinião do público não pode ser toureiro”.



A conversa, muito assertiva e interessante, rumou então por um dos caminhos que actualmente mais absorve a opinião dos agentes da Festa e aficionados, o bem-estar animal, sendo questionado o uso de serretas, gamarras.


Nesse sentido, ambos os toureiros presentes consideraram que cada vez mais esse tipo de recurso deve cair em desuso, havendo uma preocupação maior com o cavalo de toureio, tendo João Salgueiro dado como exemplo que em provas de equitação de desporto, antes e depois das mesmas, é feito um grande controlo aos animais, inclusive ‘anti-doping’, acrescentando que “o mesmo poderia ser feito nas corridas de toiros”.


Face a esta opinião de João Salgueiro, surgiu da plateia a informação que está prevista, e a pensar numa melhor qualidade e bem-estar do cavalo de toureio, a presença de dois veterinários em praça, o que intervém como assessor do delegado técnico, e outro na eventualidade de haver algum animal a necessitar de cuidados médicos “Um cavalo pode no momento da corrida estar com febre e não se encontrar em condições para tourear”.


Duarte Pinto insistiu também na ideia de ser cada vez mais necessária uma maior preocupação relativamente ao bem-estar daquele que é o parceiro de trabalho dos cavaleiros pois “a necessidade do bem-estar animal é fundamental”.


Sobre o público rematou dizendo que este "é quem manda, e é ele que pode fazer a melhor selecção de quem anda na arena e de como se toureia”. Acrescentou ainda que, é também muito importante a apresentação em praça de um cavalo, pois: “Como pode alguém ir de frente e tão bem nas sortes se depois aparece na arena mal-arranjado?!”, ressalvando que: “A base do toureio a cavalo tem que ser uma boa equitação”.


Ultrapassado o tema do bem-estar animal, manteve-se o cavalo como tema de discussão mas tendo em conta a sua criação, considerando Salgueiro que: “Actualmente criam-se cavalos pela sua beleza, linhagem e não pela funcionalidade”, consequência do que ele assume ser as coudelarias dos “novos ricos que criam cavalos sem nunca antes terem montado”.


Novamente, o tema seguinte foi introduzido pela assistência, e muito pertinente – o rejoneio e a forma como os espanhóis têm o protagonismo no que ao toureio a cavalo diz respeito.


João Salgueiro afirmou que aí são “os nossos toureiros quem tem que assumir essa responsabilidade, arranjando cavalos que marquem a diferença” e comprometeu no assunto a imprensa taurina: “Se os toureiros não aguentam a pressão dos críticos então vão para casa mas o mal é que a imprensa também não diz a verdade”.


Para Duarte Pinto, “a Tauromaquia é o toiro”, pelo que não podemos comparar os cavaleiros portugueses com os rejoneadores espanhóis: “se o toiro é a essência da Festa, então este deveria ser igual para todos, como não é, não podemos comparar”.



Seguiu-se a esta mesa redonda uma brilhante e interessante conferência sobre “O impacto sócio-económico da Capeia Arraiana”, pela jovem veterinária Filipa Pucariço, que com os dados da sua tese de mestrado, evidenciou o papel dessa forma de Tauromaquia Popular na vida e na economia de uma região como é a beira interior. Como conclusões deste trabalho, ressalva-se a importância da Capeia na identidade, tradição e herança cultural para a região do Sabugal; no quão determinante foi para o início de actividade ganadera no concelho; e no impacto económico que tem na região aquando a realização destes espectáculos. Um trabalho a ter em conta e que poderia ter aplicação na Tauromaquia Profissional.


Já a tarde estava a meio quando a última mesa redonda do Fórum teve início: “A Tauromaquia como inspiração das outras artes”. Para a moderar, o Dr. Elísio Summavielle, director do CCB, e como convidados Alexandre Pomar, crítico de arte, a Profª. Mª Alzira Seixo, especialista em literatura, e João Gil, músico.



Alexandre Pomar, filho do conceituado artista Júlio Pomar, traçou a relação da Tauromaquia com as Artes Plásticas, contextualizando-a historicamente e referindo os principais exemplos de obras e artistas que foram beber a sua inspiração à tauromaquia, de Goya a Picasso, e na arte contemporânea.


À Profª. Mª Alzira Seixo coube relacionar a Festa dos Toiros com a literatura portuguesa mas também em obras da literatura universal, em escritores de nacionalidades onde a Festa Taurina nem tem expressão, evidenciando assim o papel e a importância desta arte como embaixadora cultural. Mais considerou a distinta convidada, que a Festa Brava é a preservação e a homenagem ao animal, o toiro de Lide, e que só a ignorância produz reacções negativas e decreta opiniões sem nexo baseadas o preconceito e na ignorância. Uma verdadeira delícia de ‘aula’, a que a Profª Mª Alzira levou ao Fórum e aos respectivos presentes, a quem deixou cativados com a sua leitura de excertos e poemas dedicados à Tauromaquia.


O músico João Gil começou por afirmar sentir-se ‘finalmente livre’ para poder assumir sem risco de preconceitos a paixão que tem pela Tauromaquia. Também ele considerou que com a riqueza da Festa dos Toiros é fácil sair um acorde musical, principalmente tendo em conta a emoção que vem do toiro. Lamentou que o ser ‘anti’ tourada seja feito, hipocritamente, como “lavagem de consciência, pelo que se eu não gosto, então sou boa pessoa”, considerando ainda muito básico "o argumentário dos anti-taurinos que é quase como um apedrejamento público”.


Depois de mais de um mês, terminou assim em grande o I Fórum Nacional da Cultura Taurina. Um fórum inovador que contou com personalidades de dentro e fora da Festa, e onde se debateram temáticas tão diversas como o bem-estar animal, a comunicação da tauromaquia no sec. XXI, a evolução presente e futura do toiro, do toureio a cavalo e da pega, além dos cominhos para revitalizar o toureio a pé, impactos económicos da tauromaquia, investigação sobre o toiro de lide entre muitos outros, que resultaram num verdadeiro espaço de pensamento aprofundado sobre esta expressão cultural e artística.


Todos os participantes fizeram questão de ‘reclamarem’ próximas edições para breve.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Programação do último sábado de Fórum Nacional da Cultura Taurina

O Fórum Nacional da Cultura Taurina prossegue no próximo fim-de-semana para o último dia de sessões.

As inscrições para o Passe Diário (7€ sócio e 8€ não sócio) decorrem através do email grupotauromaquicosector1@gmail.com

Dia 16 de Abril:

11h00m – Mesa Redonda: Em que sentido está a evoluir o Toureio a Cavalo? – Mestre Luís Valença, os cavaleiros António Ribeiro Telles, João Salgueiro, Filipe Gonçalves e Duarte Pinto

12h30m – Conferência: Impacto económico da Tauromaquia: O caso das Capeias Arraianas – Filipa Pucariço


14h00m – Mesa Redonda: A Tauromaquia como inspiração para as outras artes - Alexandre Pomar (crítico de arte), Maria Alzira Seixo (especialista em literatura portuguesa), Alice Vieira (escritora) e João Gil (músico) - Moderador Elísio Summavielle (director do CCB)

16h00m – Encerramento do Fórum.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Fórum Nacional da Cultura Taurina - programação dos próximos dias


O Fórum Nacional da Cultura Taurina prossegue no próximo fim-de-semana para o penúltimo dia de sessões.

As inscrições para o Passe Diário (7€ sócio e 8€ não sócio) decorrem através do email grupotauromaquicosector1@gmail.com

Este é, por agora, o programa do fórum, passível de alterações devido à conjugação de agenda de todos os convidados, pelo que esperamos a vossa compreensão.


PROGRAMAÇÃO


Dia 9 de Abril:

11h00m – Mesa Redonda: Estratégias para revitalizar o Toureio a Pé em Portugal – os matadores Vítor Mendes e António João Ferreira, e o empresário Ricardo Levesinho. Modera o crítico António Lúcio.

12h30m – Conferência: O Médico Veterinário e o Bem-Estar Animal: sua importância no espectáculo taurino – Dr. Jorge Moreira da Silva (médico veterinário)

PAUSA ALMOÇO

14h30m – Conferência: Os sentidos do Toiro de Lide – Profª Drª Luísa Mendes Jorge (Veterinária, Prof.ª universitária e Investigadora)


Dia 16 de Abril:


11h00m – Mesa Redonda: Em que sentido está a evoluir o Toureio a Cavalo? – Os cavaleiros António Ribeiro Telles, João Salgueiro e Duarte Pinto – Moderador: Paulo Pereira

12h30m – Conferência: Impacto económico da Tauromaquia: O caso das Capeias Arraianas – Filipa Pucariço

PAUSA ALMOÇO

14h00m – Mesa Redonda: A Tauromaquia como inspiração para as outras artes - Alexandre Pomar (crítico de arte), Maria Alzira Seixo (especialista em literatura portuguesa), e João Gil (músico) - Moderador Elísio Summavielle (director do CCB)

16h00m – Encerramento do Fórum.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Síntese do 3º dia do I Fórum Nacional da Cultura Taurina


O terceiro dia do I Fórum Nacional da Cultura Taurina foi uma jornada intensa e que se traduziu numa ampla e profunda discussão sobre o presente e a evolução da tauromaquia.


O dia começou com a apresentação de uma técnica recente, a Termografia, apresentada pela veterinária Carolina Ferraz. Esta é uma técnica de deteção de infravermelhos, sinalizando a captação de temperatura, permitindo assim aprofundar a investigação e conhecimento sobre o toiro de lide e a sua fisiologia. Por exemplo, com esta técnica pode-se confirmar cientificamente que o corte da ponta dos pitons dos toiros é absolutamente indolor e inofensiva para o animal. 


A primeira mesa redonda do dia foi dedicada ao Toiro do Futuro e reuniu 3 ganaderos de créditos firmados: António da Veiga Teixeira, João Ribeiro Telles e Raul Brito Paes, sendo moderada pelo critico Miguel Ortega Cláudio. 


António V. Teixeira defendeu um toiro de casta que pede contas aos toureiros, mas concordou que o toiro do século XXI tem de ser uma mistura entre o toiro de casta e do toiro feito a pensar no toureiro. “O toiro do futuro não pode ser o toiro colaborador, pois a sensação de risco tem de estar sempre presente na arena.” Quanto ao papel do ganadeiro afirmou que o “ganadeiro anda a reboque do que as figuras querem, e o toiro e toureiro têm de andar a reboque do público.”

João Ribeiro Telles realçou a tensão que hoje se nota nas praças entre o toiro de casta e a reação do público que procura um espectáculo equestre que não se esgota no toiro e que o toiro de casta não permite. A essência do ganadeiro pode estar na busca da casta, mas o toiro cooperante com a casta necessária é um bom toiro. Rematou afirmando que “o publico é que exige uma certa evolução que os ganaderos também têm de interpretar.”

Raul Brito Paes deu conta das suas inovações nos métodos de selecção, realizando tentas em busca do toiro ideal para a lide a cavalo, indo para lá da tenta clássica feita para o toureio a pé. Questionando se “a selecção para o toureio a cavalo em Portugal não tem de ser adaptada?”

Concordando com a ideia de que os toiros são hoje mais bravos que nunca, discordou de que o toureio a cavalo não precise de um toiro que humilhe. Se por vezes a percepção do risco é menor, por parte do público, isso deve-se ao facto de os toureiros serem hoje tecnicamente mais perfeitos pelo que a técnica reduz a percepção do risco, mas ele está lá na mesma. 


A primeira mesa redonda da tarde foi dedicada a pensar a Qual o Próximo passo na Evolução da Pega. Numa discussão moderada por José Cáceres, interviram os antigos forcados José Pires da Costa, Peu Torres, Diogo Sepúlveda, cabo dos amadores de Santarém, e Vasco Pinto, cabo dos amadores de Alcochete. 


Para Pires da Costa a história da pega é uma evolução continua. A pega vai continuar a ganhar estética e perfeição, sempre ligada à evolução do toiro. O forcado tem cada vez mais de fazer do seu corpo uma muleta. A dimensão plástica e estética, a arte, será o futuro da pega. 


Para Peu Torres a pega ainda tem muito para evoluir. O público pode pedir outras situações, outra imprevisibilidade, isso vai ser sempre determinante na evolução futura. Defende que não podemos ser restritivos, temos de estar aberto às mudanças que o grande público possa pedir em relação à corrida e ao forcado. A pega é tão intensa que nunca poderá ser monótona. Rematou afirmando que “não me incomodava ver o forcado colocar o toiro a corpo limpo e depois executar a pega como a conhecemos.” 

Para Diogo Sepúlveda “o que é fundamental é dar sentimento à pega. A pega de caras tem de ser menos força e mais sentimento, mais arte, respeitando os tempos da pega. Referiu que caminhamos para um toiro mais pesado e isso condiciona a evolução da pega. O espectáculo da pega vem do toiro, da sua emoção e transmissão. A evolução deve ser feita no aperfeiçoamento não “abandalhando” o que se faz.


Vasco Pinto destacou que “há uma mudança do conceito da pega como exercício simples de galhardia para um modelo de prática artística e como manifestação de sentimento ao citar, carregar, templar e reunir.” Estes tempos têm de estar reunidos para que a pega seja um exercício artístico e não somente de força. É por aqui tem de seguir a evolução da pega. Concluiu dizendo que “o forcado é um toureiro. O forcado tem de ser cada vez mais toureiro.”


Para encerrar o dia, a última mesa redonda analisou a forma de Comunicar a Tauromaquia no século XXI. Esta mesa foi moderada pelo crítico Miguel Soares e contou com a participação António Sousa Duarte (Director da ADBD, Agência de Comunicação , Paulo Pinto (Diretor Criativo na Havas), Helder Milheiro (freelancer que trabalha em Comunicação Taurina) e Paulo Pessoa de Carvalho (empresário e presidente da Associação Portuguesa de Empresários Tauromáquicos).


António Sousa Duarte destacou que “Não podemos desenquadrar a Tauromaquia do resto do Mundo e do que se passa hoje em dia. Vivemos com a globalização, um Mundo em que cada vez há menos espaço para a diferença”, por isso “O grande desafio estará em combater o preconceito”.


Paulo Pinto concordou que “A parte do preconceito é a mais dificil de gerir na parte da promoção da Festa” mas “Falta profissionalismo na forma como se promove e ao montar uma corrida de toiros. Tem que haver estratégia ao montar um espectáculo taurino e na sua promoção”. Hoje existe a ”Necessidade de atrair novas marcas publicitárias e de se inovar”. “Possivelmente repensando o produto e fazendo ajustamentos”. 


Helder Milheiro assinalou que “É importante pensar o produto Tauromaquia, um produto único, uma marca brutal, de grande impacto, pois a Tauromaquia tem uma riqueza muito grande que ainda tem muito mais para explorar”. Nos dias de hoje perante o preconceito antitaurino que odeia e ataca o que desconhece, é imperiosa a “necessidade de dar a conhecer a Festa dos Toiros na sociedade” de modo a equilibrar a forma com esta é vista e a aumentar o seu mercado de clientes.”


Paulo Pessoa de Carvalho identificou erros que se cometeram, como a comunicação feita pelo sector, centrada em si mesmo, e pouco focada na sociedade em geral, pelo que o presente e futuro passam pela maior profissionalização da práticas e estratégias para comunicar o espectáculo taurino, atingindo a sociedade e captando novos públicos. 


O Fórum continua nos próximos dias 9 e 16 de Abril, no Campo Pequeno. Conheça o programa e inscreva-se em www.gtsector1.blogspot.com




Fotografias: Frederico Henriques